“Príncipe Cinderelo”, de Babette Cole (1949-2017)

Para tirar o pó do blog, hoje compartilho o texto sobre o livro “Príncipe Cinderelo”, de Babette Cole (1949-2017) apresentando para a disciplina FLC0488 - Literatura Infantil e Juvenil: Linguagens do Imaginário IV que cursei no meu penúltimo ano no Bacharelado em Biblioteconomia pela ECA-USP (2º semestre de 2021).

Babette Cole foi uma escritora inglesa que escreveu e ilustrou mais de setenta livros ao longo de sua carreira que foi iniciada na década de 70. Uma de suas personagens mais icônicas é a “Princesa Sabichona”, de 1986. Antes de falecer, Babette esteve trabalhando em “Princess Smartypants and the Fairy Geek Mothers”. Cole é reconhecida por suas ilustrações características.

Os livros de Babette subvertem os papéis tradicionais nos livros da Literatura Infantil e apresentam personagens nada convencionais em narrativas divertidas. Neste ensaio a obra de Babette Cole que será analisada é “Príncipe Cinderelo” (Martins Fontes, 2000), publicado pela primeira vez em 1987.


Cinderelo 

“Príncipe Cinderelo nem parecia príncipe” é dessa forma nada convencional que a história é iniciada.

Cinderelo é o caçula de quatro irmãos, os três mais velhos são enormes e peludos. Enquanto o trio aproveita as noites na Discoteca do Palácio, o franzino e magricela Cinderelo é obrigado a ficar em casa limpando a sujeira dos irmãos.

Quando uma fada cai pela chaminé em um sábado à noite, esta anuncia que realizará todos os desejos de Cinderelo, porém ao tentar transformar uma lata de alumínio em um carro, o objeto se transforma em um carrinho miniatura, as roupas de Cinderelo viram um traje de banho e ao tentar deixá-lo enorme e peludo, o jovem se transforma em um macaco imenso. Mas, graças ao encantamento, o príncipe se enxerga bonito ao se ver no espelho. Finalmente, Cinderelo realizaria o seu sonho de ir à discoteca.

Utilizando seu carrinho como meio de transporte, Cinderelo vai para o seu tão desejado destino, no entanto, por ser estar enorme não consegue ingressar no “Embalo Real”. O príncipe decide então voltar para casa de ônibus, chegando ao ponto de ônibus encontra-se com uma princesa que se assusta ao ver um gorila perguntando-lhe quando o próximo ônibus passaria. Por sorte, no instante seguinte, o encanto se desfaz pois era meia-noite. Ao ver Cinderelo à sua frente, a princesa acredita que o rapaz a havia salvado do macaco, no entanto, por ser muito tímido, Cinderelo foge correndo apesar do pedido da princesa para ele esperar. Em sua fuga, o rapaz deixa cair suas calças.


Análise do livro

O primeiro detalhe que nos chama atenção no livro “Príncipe Cinderelo” é a capa. Um rapaz enrubescido com uma coroa em seus cabelos loiros corre deixando para trás uma calça jeans, Cinderelo foge apenas com camisa e avental branco e meias pretas furadas.

Trata-se de um livro de 32 páginas que inicia com Cinderelo já em sua rotina, apresenta as personagens e o desejo do protagonista, em seguida a fada surge e os acontecimentos seguintes acontecem num virar de páginas.

A autora propõe uma releitura para a já conhecida história de Cinderela (ou A Gata Borralheira) visto que tematiza o gênero conto de fadas e propõe uma avaliação reflexiva da história ali apresentada. E se fosse um garoto preso dentro de casa obrigado a limpá-la? E se os irmãos fossem vaidosos, fortes e preguiçosos no lugar das meias irmãs do clássico conto de fadas? Um personagem masculino precisa sempre salvar uma personagem feminina?

Enxergo que o livro subverte estereótipos, pois temos um personagem masculino que está confinado aos afazeres domésticos pelos próprios irmãos que enxergam nele um rapaz fisicamente inferior. Cinderelo é um rapaz que possui sentimentos que não consegue expor: sua vontade de ir à Discoteca e seu desejo (ou necessidade) de ser aceito, mesmo que essa aceitação seja ele sendo “fisicamente” parecido com seus irmãos.

A narrativa brinca com o mundo das narrativas de contos de fadas: não inicia com Era uma vez, a personagem é um rapaz, o encontro com a princesa ocorre em um ponto de ônibus, ele é considerado herói por ela por um “engano” e foge perdendo suas calças jeans. Quando a princesa anuncia que está à procura do dono da calça, sua busca por Cinderelo não é tão longa ou dificultosa, lá está o príncipe apenas de avental e camisa observando os irmãos tentando entrar ao mesmo tempo na calça, então a princesa aponta para ele e ordena que ele tente. Apesar da reclamação dos irmãos, a calça serve em Cinderelo e é a princesa que o pede em casamento.

A produção contemporânea de literatura destinada preferencialmente destinadas às crianças e jovens, segundo Navas, "conduz o leitor a adquirir uma postura mais ativa face ao texto, haja vista ter que cooperar explicitamente com ele" (2015, p. 85). No livro analisado, observamos essa cooperação durante a sua leitura ao considerarmos que a criança leitora trará seu conhecimento prévio sobre o conto de Cinderela, sobre os papéis desempenhados pelas figuras femininas nessa "versão" e terão um espaço durante a leitura para se questionar sobre as diferenças nesta história e o porquê delas.

Cinderelo pode ser um príncipe sem atributos físicos considerados como ideias para um príncipe (ou costumeiramente atribuídos a essa figura), ele pode ser tímido, não conseguir se posicionar em relação à exploração imposta pelos irmãos mais velhos e por uma série de acontecimentos não previstos ele pode se encontrar com aquela que o "salva" ou melhor, pede que ele mude de vida, saindo de uma vida que o aprisionava para um cotidiano luxuoso ao lado de sua princesa.

Assim como livros que atingem um reconhecido sucesso comercial, o livro foi adaptado para um curta-metragem animado em 1993.


Considerações Finais

Para alcançar a qualidade na Literatura Infantil e a expressão que o gênero pode alcançar, como salienta Ligia Cademartori, deve-se lembrar que a escrita endereçada às crianças “não é fácil nem menor, não aceita improvisação nem descuido, mas requer talento especial para ser composto de acordo com suas peculiaridades” (2010, p. 9).

Acredito que ler Babette é um sinônimo de qualidade e expressividade na Literatura Infantil contemporânea. Numa mistura deliciosa de originalidade, inovação e qualidade literária suas obras abordam temas caros às pessoas independente de tamanho ou idade, em relação à criança leitora, não subestima sua inteligência ou apela para o didatismo em narrativas que são facilmente reconhecidas por seu traço único e texto certeiro.


Referências

ABOUT. Disponível em https://babette-cole.com/about/. Acesso em: 10 dez. 2021

BABETTE Cole Remembered. Disponível em https://babette-cole.com/babette-cole-remembered/. Acesso em: 10 dez. 2021

CADEMARTORI, Ligia. O que é Literatura Infantil. São Paulo: Brasiliense, 2010.

COLE, Babette. Príncipe Cinderelo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ECCLESHARE, Julia. Babette Cole obituary. Disponível em https://www.theguardian.com/books/2017/jan/16/babette-cole-obituary. Acesso em: 13 dez. 2021

GARCIA, Andŕe André Luiz Ming. Vídeo-aula 5.2. Narrativas questionadoras, 2021. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=3888357. Acesso em: 07 dez. 2021 

NAVAS, Diana. Metaficção e a formação do jovem leitor na literatura infantil e juvenil brasileira contemporânea. Linguagem: Estudos e Pesquisas, [S. l.], v. 19, n. 1, 2016. DOI: 10.5216/lep.v19i1.39889. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/lep/article/view/39889. Acesso em: 10 dez. 2021.

REMEMBERING Babette. Disponível em https://babette-cole.com/remembering-babette/. Acesso em: 10 dez. 2021

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